Acusado de reduzir a oferta de comida no planeta, o etanol brasileiro estimula o plantio de alimentosAté pouco tempo atrás, o Brasil só recebia elogios por seu revolucionário programa de uso do álcool feito de cana-de-açúcar para o abastecimento de carros. Hoje, com a ajuda da tecnologia dos motores movidos a bicombustíveis, o consumo de etanol já é maior do que o de gasolina no país, algo que não ocorria desde os anos 80, no auge do Proálcool. De um mês para cá, no entanto, o jogo começou a se inverter. O etanol transformou-se no vilão do encarecimento mundial de alimentos. Isso porque, segundo seus críticos, o uso de terras férteis para produzi-lo reduz a área destinada às culturas tradicionais de grãos, como arroz e trigo. Essa suposição fez o relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler, classificar a produção de biocombustíveis de
crime contra a humanidade.
A súbita ofensiva contra o etanol motivou uma forte e correta reação do governo brasileiro. Em discursos pronunciados na semana passada, o presidente Lula classificou as críticas de "falácias" abastecidas com motivos comerciais. Segundo Lula, o encarecimento dos alimentos deve-se, na verdade, aos
subsídios agrícolas de americanos e europeus, "uma droga que entorpece e vicia seus próprios produtores", e o problema do álcool combustível se restringe ao etanol de milho produzido nos Estados Unidos. A gritaria do governo brasileiro tem razão de ser. Plantando cana-de-açúcar para produzir álcool em 1% de seus solos aráveis, o Brasil consegue produzir mais da metade de todo o combustível que necessita para abastecer os seus automóveis. Além disso, os canaviais vêm avançando principalmente sobre áreas degradadas de pastagem e não concorrem com a produção de alimentos. Os Estados Unidos, por outro lado, já consomem 4% de suas terras com o plantio do milho destinado à produção de álcool, o que não representa nem 2% do total de combustíveis usado pelos carros do país. Um hectare de milho plantado rende apenas 3 000 litros de etanol. Já com a cana, na mesma área chega-se a 7500 litros de etanol.
A ironia maior, no entanto, é que, no Brasil, o avanço dos canaviais até ajuda a aumentar a produção de alimentos. Isso ocorre porque o plantio de cana-de-açúcar requer rotatividade de culturas. Assim, 15% das áreas de canaviais são renovadas com outras lavouras, como a de feijão e a de soja. "Com a cultura da cana avançando nas pastagens, a oferta de alimentos aumenta, e não diminui", diz o ex-ministro da agricultura Roberto Rodrigues. Tanto é assim que, neste ano, o país baterá um novo recorde na produção de grãos. De resto, o Brasil chega a utilizar 20% de suas áreas agricultáveis. Há muita terra a ser explorada, sem derrubar uma árvore de floresta nativa. Considerando-se ainda os ganhos de produtividade, o país poderia tranqüilamente multiplicar a produção de alimentos e etanol nos próximos anos, sem que uma cultura tenha de roubar o espaço das demais. Nos Estados Unidos, no entanto, o produtor de milho recebe subsídio para fabricar biocombustível, o que despertou uma corrida entre os fazendeiros americanos. Resultado: o incentivo fez diminuir o espaço de outras plantações e aumentar o preço dos alimentos. "Não podemos confundir as coisas e cair numa falsa polêmica. Existe assimetria entre oferta e demanda de alimentos no mundo, que é o que causa o aumento do preço da comida. Mas isso não tem nada a ver como o etanol brasileiro", afirma Roberto Rodrigues.
(texto completo em
http://veja.abril.com.br/300408/p_058.shtml)